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Não é complicado

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       Não é complicado de entender. É banal. É fácil. É ridículo. É ridículo que nós tenhamos que passar por isso. Eu não quero mais, nós não conseguimos mais. Eu não quero ser aquela criança que a vó levou pela mão para não ver uma menina ser estuprada em um estacionamento. Eu não quero ser a menina que você chamou em um canto na sua casa para mostrar um brinquedinho, eu não quero brincar com você. Eu não quero que você me toque, eu não quero que você me toque sem eu deixar. Isso é difícil? Eu não quero lembrar de você batendo na sua filha e na sua esposa, eu não quero lembrar das tantas vezes que você fez isso. Eu não quero ver mais violência contra nós nas ruas e ter que andar rápido para não ser mais uma vítima. Mais um número. Eu não quero ser a menina que se tornou mulher pela falta de um pai, ou por um pai que assediou, matou, agrediu traiu uma mulher. Eu não quero me tornar mulher porque tenho que lidar com seu estupro. Eu não quero deixar de ser menina porque você me achou gostosa, voltando para casa da escola. Eu não sou comida. Eu quero que vocês, quem quer que sejam, me devolvam o tempo que gastei e a infância que perdi, por sua culpa. Eu não quero ver sua autoridade masculina na minha casa, com minha mãe, minha vó, minhas irmãs. Eu não beijo mulher porque nenhum homem me comeu de jeito. Quero que essa faca que você aponta para ela, essa mão que você levanta, essa ameaça, esse discurso que você rouba, esse dinheiro que você ganha a mais, essas mulheres que você mata, esse olhar que você dá pra meninas na rua, esse assobio como se eu fosse cachorro, essa mão que você passou na minha bunda, o cabelo que você puxou, só porque eu estava na rua, em uma festa, bebendo... acabe. O aborto clandestino que ela fez, porque você disse que pôs camisinha. Porque você gosta de beber no bar, não cuidar de criança. Porque quem tem que lavar a louça sou eu, porque eu sou mulher, porque eu sei fazer comida e então eu posso casar. Posso? Eu sou mulher. Eu não sou sua mulher. Nenhuma mulher nunca vai ser de ninguém, além dela mesma. Não somos propriedade. Porque eu to com essa roupa então eu to pedindo. Porque bebeu bobeou. Porque eu estava lá. Porque eu estava lá na hora errada, no dia errado. Eu quero que tudo isso acabe. Eu queria que esse texto pudesse acabar antes. Eu queria não ter tanta coisa para falar sobre isso.

 

       Eu não estou na rua para ouvir que você me chuparia gostoso. Eu to na rua para lutar. Eu to na rua porque a rua é minha. Porque era para ser minha. E nem eu nem nenhuma mulher temos culpa desse rasgo que você fez na minha vagina, desse roxo que você deixou na boca dela, de ficar por achar que não temos saída, de ter medo de te denunciar, de morrer. Eu não queria chorar assistindo uma peça que fala sobre nós. Eu não queria que falar sobre nós fosse falar sobre violência. Eu queria ter liberdade. Mas não há liberdade para mim enquanto minha irmã não tem liberdade. Tudo que nos resta agora, é lembrar, de cada uma dessas mulheres. É acender uma vela. É dizer seu nome, sua idade, ver sua foto. A foto de um sorriso, lindo, a foto de uma ausência, a roupa de uma ausência. Um corpo que não está mais lá. Muitas. Iguais. Poderia ser qualquer uma. Entre essas tantas qualquer umas mais da maioria são mulheres negras. Uma mulher que carrega o peso da colonização, o peso da propriedade, o peso da cor. De uma cor. Preta. Vermelha. A cor de uma pele, a cor de um luto, a cor do meu sangue. Brancas. Velas brancas. Velas acesas para aquelas que não voltam mais.

 

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