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MEU PAI MORREU DE DOR DE OUVIDO

September 23, 2017

 

Meu pai morreu de dor de ouvido.

Aos 44 anos, meu pai morreu de dor de ouvido.

Aos 44 anos, casado, pai de três filhos, meu pai morreu de dor de ouvido.

Foi em 1991.

 

Era um tempo em que as coisas não eram claras. Na minha quase idade nenhuma, tudo era luz e sombra. As coisas, quando descobertas, eram luz. A morte do meu pai, de dor de ouvido, era sombra.

 

Era um tempo em que o tempo parecia passar devagar quando a aula acabava. Em que foi se tornando normal ficar até de noite na escola. As crianças todas iam embora. De todas, ficavam umas dez e depois cinco. Até que só restávamos eu e minha irmã. Até que a mãe finalmente ligava. O pai estava no hospital outra vez. Outra vez dormiríamos na casa da diretora, era sempre assim. Pensando bem, não era tão mal. Nós víamos tevê até muito tarde, a história de Ana Raio e Zé Trovão. Eu era Anna. Zé, o meu pai.

Outra vez e sempre, o meu pai estava no hospital. Ele foi ficando cada dia mais magro, eu ouvia as pessoas dizerem. Confesso que não percebia. Só achei engraçado quando os óculos, de uma hora para outra, pareceram enormes em seu rosto.

O meu pai foi ficando cada dia mais magro e ficou realmente muito triste quando o Gonzaguinha morreu. Passou na tevê, na hora do almoço. Nesse dia, descobri que aquele homem da capa de um disco que tinha lá em casa era o Gonzaguinha. Nesse dia, descobri que a morte existia e vi meu pai chorando por ela.

Tinha um outro cantor de que meu pai gostava. Uma vez eu vi o Freddie na tevê. Ele usava bigode, o meu pai também. Achei meu pai parecido com ele, até dançava meio parecido, tinha umas roupas parecidas. Meu pai sabia cantar em inglês todas as músicas do Freddie que tocavam num disco que não era o do Gonzaguinha. Um disco em que, um dia, eu li a palavra Queen.

Um outro dia, falaram que o Freddie ia morrer. Eu não entendia como sabiam que o Freddie ia morrer. Eu não entendia por que meu pai estava sempre no hospital.

E teve mais um outro dia, uma manhã. Estava sol. A mãe chegou à casa da minha vó. Estávamos lá eu, minha irmã e meu irmão, que era bem pequeno. Na verdade, os três eram bem pequenos. Eu era a mais velha. Alguém nos levou até um quarto e fechou a porta. A cortina branca parecia voar.

Aos 44 anos, meu pai morreu. Antes que o Freddie.

A mãe disse que era dor de ouvido.

Descobri que dor de ouvido matava assim como acidente de carro, o Gonzaguinha morreu de acidente de carro. Só não descobri se sabiam que o Gonzaguinha ia morrer, nem se sabiam que meu pai ia morrer.

Foi em 1991. Meu pai morreu depois do Gonzaguinha, mas antes que o Freddie.

 

Aos 46, Gonzaguinha morreu no dia 24 de abril.

Aos 44, José morreu no dia 21 de outubro.

Aos 45, Freddie morreu no dia 24 de novembro.

 

Quando eu tinha treze, achei o atestado de óbito do meu pai.

 

Quando as coisas não eram tão claras, desmesura. Quando tudo era luz e sombra para mim e também para o mundo, desmesura. Aos 44 anos, desmesura. Casado, pai de três filhos, meu irmão bem pequeno, os três bem pequenos, desmesura. Uma manhã, estava sol, a cortina branca parecia voar, desmesura.

Meu pai morreu antes que o Freddie.

Eles tinham HIV.

Eles sabiam que iriam morrer.

 

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